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sábado, 17 de dezembro de 2011

Auto-Estima: Uma possível construção


Inúmeros livros de auto-ajuda buscam ensinar o amor a si mesmo; como elevar a auto-estima. Mas será que o amor próprio é algo que se aprende?
Para a psicanálise lacaniana, o EU é constituído a partir do olhar do Outro. Quem já não presenciou o jubilo de um bebê quando tem cerca de seis meses ao descobrir sua imagem no espelho? Se quem segura este bebê, não só neste momento, mas na vida, ou seja, se a pessoa constante em seus cuidados o vê como um SER especial, dotado de virtudes singulares e com uma personalidade própria, a base para a constituição da sua auto-estima está solidificada. Nestes primórdios da vida, o olhar dos pais dota o bebê da ilusão de completude. O pequenino é dependente, não tem o controle dos esfíncteres, não anda, não fala, usa babador. E daí? É fofo, pequeno e encantador.
A questão é que nem todos recebem este olhar.
D. W. Winnicott, pediatra e psicanalista inglês acrescenta através de sua teoria e prática clínica que a base da segurança é passada na forma que o bebê é manejado, carregado, trocado, embalado seu dia-a-dia.
Para Winnicott, trata-se da mãe conseguir identificar-se com seu bebê e fornecer o que ele solicita quando este demanda, sem forçá-lo, respeitando seu SER. O bebê pode então acreditar na ilusão que cria o mundo, é um pequeno deus. Essa ilusão primeira é necessária, é a base da possibilidade de acreditar em si e na prosperidade. Em linguagem comum, o bebê é otimista ao extremo, para depois poder acreditar que o mundo pode oferecer coisas boas, embora nada seja perfeito, ou seja, num primeiro momento é preciso a ilusão para depois advir à desilusão.
A questão é que algumas pessoas não experimentaram  a beatitude de um bom começo. E nesses casos, a base do amor-próprio não está presente. No seu lugar mora o vazio e a dor. Às vezes advém à melancolia, como uma dinâmica de personalidade que se pune, culpa, não acredita em si, na sua capacidade própria. O bebê começa a andar, torna-se uma criança, e tenderá a repetir situações que levam ao desamor, embora sua busca é por amor. A criança terá outras vivências na escola com amigos, parentes, vizinhos, entre estes uma pessoa poderá se destacar e oferecer um olhar valoroso. Aqui e ali a criança poderá recolher algo que a ajude a constituir sua auto-estima, mas lembremos que a base faltou e se os pais ainda não conseguiram amar seu filho como ele é, sem exigir que seja um outro, ou são indiferentes a ele, tudo ficará mais difícil.
Alguns chegam assim à vida adulta, com amores frustrados, sem conseguir amar a si mesmos. Aqui um profissional, psicólogo ou psicanalista habilidoso e não sem afeto poderá ajudar nesta empreitada.
Não acredito que se possa aprender a amar-se por um manual, mas sim através das relações com o outro, das novas e inúmeras oportunidades que a vida nos oferece. Para tanto, é necessário se abrir e arriscar-se ao inédito, ao não vivido. É preciso buscar força suficiente para se permitir encontros fundamentais, com o outro, com a arte, com a vida. Acreditar que nunca é tarde. Dará mais trabalho, mas adultos podemos enxergar nossos feitos e nos orgulhar, inclusive de termos transformado o negativo do início em positividade. É um ganho a mais para Eros que, segundo Freud - o pai da psicanálise - promovia tudo que diz respeito à vida, a união e a ligação.

Sao Paulo, SP, Brazil
Psicóloga, Psicanalista e Mestre em Psicologia Clínica pela PUC. Co-autora do Livro Colóquio Freudiano-Teoria e Prática Freudiana,da Ed. Lettera; Direito em Mapa Multidiciplinar e Cultural, Ed. Verbo Jurídico; Sentido Inverso Antologia Poética, Editora Andross; Antologia de Contos Fiat Voluntas II, Ed. Multifoco. Contato:anaamorim.psy@gmail.com
Blog:
Diálogos com a Psicologia e Psicanálise